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Sustentabilidade tripla

 Especialista alemão defende impacto ambiental nulo na construção de novos edifícios, da fabricação dos materiais à destinação dos resíduos ao fim de sua vida útil.

Werner Sobek

Formou-se em Arquitetura e Engenharia Estrutural em Stuttgart em 1980, onde também fez pós-graduação e PhD em Engenharia Estrutural. Em 1991, tornou-se diretor do Instituto de Projeto Estrutural e Métodos Construtivos. Entre 1991 e 1994 foi professor na Universidade de Hannover (Alemanha), quando passou a lecionar na Universidade de Stuttgart. Sobek fundou em 1992 sua consultoria de engenharia e projeto que hoje está presente em Stuttgart, Frankfurt, Nova York, Istambul, Moscou, Cairo, Dubai e São Paulo, além de ser um dos fundadores do German Sustainable Building Council DGNB, em 2007, tendo sido eleito presidente para 2008-2010.

O nível de compreensão da sustentabilidade já ultrapassou o conceito puramente ecológico para abranger outras questões, como a funcionalidade das construções e seu custo. Este custo, porém, deve ser avaliado globalmente, e Werner Sobek alerta que devemos considerar a vida útil dos materiais e do empreendimento em si em uma avaliação de longo prazo, que chega até à demolição total da edificação. Assim, é preciso pensar no impacto dos materiais não só na sua produção, mas em seu descarte no final da vida do edifício, que fatalmente vai ocorrer, mais cedo ou mais tarde. Esta visão de longo prazo está presente no conceito desenvolvido por Sobek, o Triple Zero, segundo o qual a construção deve demandar zero energia em seu funcionamento, ter zero emissões de CO2 em todo o seu processo e produzir zero resíduos em toda sua vida útil. A reciclagem, aqui, é uma grande aliada na escolha de materiais, poupando o planeta de receber resíduos em aterros. O mesmo ocorre para matérias com grande durabilidade: seu resíduo "melhora" sua cota de energia, além de amortizar o custo. E, se um investimento inicial para uma construção verdadeiramente sustentável é maior, o retorno econômico é certo, defende Sobek.

Diz-se muito que um empreendimento é sustentável só porque colocou dois aquecedores solares na cobertura e um sistema coletor de água de chuva, que mal se aproveita. O conceito de "sustentabilidade" na construção não teria virado apenas marketing?

É verdade que algumas pessoas usam os termos como "green building" e "sustentabilidade" puramente para intensão de marketing. Isto é muito triste, mas, felizmente, é a exceção e mão a regra. A maior parte das pessoas, ao menos na Alemanha, entendeu que a sustentabilidade é muito mais que o uso de um selo ou a implementação de certas ferramentas consideradas úteis para o meio ambiente. Mas, por sua vez, painéis solares e coletores de água de chuva não são inerentemente "verdes" — apenas quando é desenvolvida uma abordagem holística que considere as qualidades ecológicas, econômicas e funcionais de um edifício. Aí pode-se falar de real sustentabilidade. Aliás, é por este motivo que dizemos "Sustentabilidade é mais que o verde" ("Sustainability is more than green", em livre tradução).

O que isso quer dizer?

Uma parte integrante da abordagem no nosso escritório é também considerar todo o ciclo de vida do edifício. Por exemplo, eu não pergunto somente quanto custa construir a casa, prefiro considerar todo o custo e o impacto ambiental envolvidos no projeto, construção, uso e manutenção, reforma e, finalmente, demolição de toda a estrutura.

Por que a demolição é um item importante na avaliação da sustentabilidade de um empreendimento? Isto é comum?

Quando não se considera a demolição no projeto de um edifício, ele corre o risco de se tornar um grande acumulado de detritos inúteis, que terão que ser depositados em aterros quando o prédio for derrubado — o que invariavelmente vai acontecer em algum momento, por mais longe que seja este momento. Esta é a prática padrão em nossa consultoria.

Até que ponto dizemos que um produto ou edifício é sustentável e quando podemos afirmar que é "greenwash"?

Desenvolvi um conceito simples, porém compreensível, sobre como deve ser um edifício para que ele seja considerado remanente sustentável: o Triple Zero.

O que é o Triple Zero?

São três itens: zero energia, zero emissões, zero desperdício. Quer dizer que o edifício não deve requerer nenhuma — ou zero — energia, ou seja, a energia gerada por fontes renováveis no próprio edifício ou na área em que ele se encontra deve ser no mínimo equivalente a toda a energia primária que o edifício requer para aquecimento, resfriamento, água quente, energia auxiliar e energia para todas as tarefas domésticas típicas. O edifício também deve produzir zero emissões de CO2. O valor de referência é toda a energia primária necessária, que é então convertida em emissões de CO2. Nenhum processo de queima (incineração) é permitido no edifício ou na propriedade.

Como se mede a energia primária de um edifício?

É o consumo de energia incorporado em qualquer edifício, tanto em sistemas elétricos como aquecimento de água. Na Alemanha, ela é rotineiramente medida, e pode ser facilmente documentada.

E quanto ao desperdício zero?

Ele é alcançado quando o edifício é convertido ou desconstruído. No final de seu ciclo de vida, todos os elemen¬tos do edifício podem ser totalmente reciclados sem que nenhum componente precise ser incinerado ou enviado a um aterro, e o lote de terra pode ser devolvido a natureza sem medo de contaminação ou resíduos.

Este conceito pode ser alcançado para qualquer tipo de construção?

O Triple Zero é uma descrição precisa das requisições básicas que um edifício sustentável deve cumprir. Não está ligado a materiais tecnológicos, mas certamente demanda mais atenção na etapa de projeto. É um princípio que certamente pode ser aplicado a todos os tipos de construção.

Como este conceito é trabalhado na etapa de projeto, garantindo os três itens?

Ele é a filosofia básica que permeia nossos projetos, é o critério segundo o qual tudo deve ser mensurado. A cada passo do projeto e construção é preciso se perguntar: o edifício ainda corresponde ao conceito de Triple Zero?

E como garantir zero energia, zero emissões e zero desperdício em obras como edifícios comerciais em centros urbanos?

Nós administramos muito bem construções residenciais menores. De fato, grandes edifícios comerciais ainda são um desafio no qual trabalhamos. Somos somente uma consultoria com cerca de 200 pessoas, precisamos do apoio de outras instituições de pesquisa, projetistas, construtoras e, acima de tudo, dos clientes, para realizarmos nosso sonho de construir um ambiente que seja totalmente Triple Zero.

Em relação ao impacto ambiental dos materiais de construção, se uma construção for bem planejada quanto à durabilidade, mesmo que os materiais teoricamente causem maior impacto, ela não seria mais sustentável, por exemplo, por durar o dobro de outra?

Sustentabilidade não deve ser igualada à durabilidade, mesmo que em alguns idiomas haja somente uma palavra para expressar esses dois conceitos, como no francês. Mesmo que certo edifício dure duas ou três vezes mais que outros, mais cedo ou mais tarde ele fatalmente será reformado ou demolido. No final, o que realmente importa é o impacto global que o edifício causa. Os materiais usados no edifício podem ser totalmente reciclados? Quanta energia cinza esta agregada nos materiais de construção? Quantos recursos foram usados no uso e na manutenção do edifício? Quando essas perguntas são respondidas, então podemos dizer qual dos edifícios é mais sustentável. Olhar somente para a durabilidade não é suficiente.

DrywalQue critérios devem ser considerados na especificação de materiais?

Os materiais devem ser totalmente recicláveis. Eles também devem ser atóxicos e devem usar o mínimo de recursos naturais possível, tanto para sua produção como para seu descarte ou reciclagem.

Construção metálicas, em tese, parecem ser as mais sustentáveis de todas: o aço é completamente reciclável e pode ter origem de metais reaproveitáveis. Numa escala, a construção metílica ocuparia uma posição mais sustentável do que outra?

Uso bastante aço nos projetos, verdade. Há várias razões para isso: por um lado, aço é um material que pode facilmente se reciclado. Claro que para sua produção inicial é necessária muita energia, e por isso ele tem muita energia cinza agregada. Porém, quanto mais se recicla o aço, melhor fica sua cota de energia. Por outro lado, o aço nos permite criar estruturas bastante eficientes que têm peso muito menor comparada com estruturas de outros materiais, como o concreto. Dependendo da tarefa específica do edifício, contexto local, uso, vida útil, etc., o aço pode ser o material mais sustentável para se usar. Em outras situações, porém, madeira ou concreto podem ser mais apropriados e mais sustentáveis. Na verdade, depende muito do contexto específico. No geral, não considero nenhum material ou ferramenta específicos sustentáveis em si, mas sim me atento situação como um todo, e então decido qual é o mais apropriado.

Você fala bastante em reciclagem, ela é a maior resposta às questões de sustentabilidade?

Não, a reciclagem é uma peca do quebra-cabeças, embora seja uma peça importante. A sustentabilidade trata de muitas questões e é baseada em um balanço entre fatores, que são o ecológico, econômico e funcional.

É correto dizer que materiais com melhor desempenho são mais caros? Como garantir desempenho em, por exemplo, habitação de interesse social?

Materiais com alto desempenho não são necessários mais caros. Isso acontece tanto no seu preço de compra, como principalmente considerando o investimento que é feito. Porque deve-se pensar no preço inicial de compra do material e também nos custos decorridos deste específico material em seu ciclo de vida. Por exemplo: uma fachada comum, porém, devido as grandes economias proporcionadas, o investimento inicial extra será logo compensado por economias possibilitadas por este material. Independentemente de se tratar de um edifício comercial ou habitação de interesse social, o que importa é o custo global, é ele que as pessoas devem ter em mente. Além disso, pessoalmente estou convencido de que é absolutamente factível construir habitações de interesse social sustentáveis. Se a pessoa investir mais em conceitos inteligentes de projeto, o investimento vai sempre ser compensado por menor custo e major conforto ao usuário.

Sustentabilidade não deve ser igualada durabilidade, mesmo que em alguns idiomas haja somente uma palavra para expressar esses dois conceitos, como no francês.

Em tese, um selo alemão parece ter mais credibilidade. Em que a certificação do DGNB é "diferente" de outras?

A diferença entre o sistema DGNB e outras certificações é muito simples: somente o DGNB considera plenamente os três pilares da sustentabilidade, quais sejam as características ecológicas, econômicas e funcionais. Além disso, ele também considera as propriedades técnicas, condições do processo e a qualidade do local.

Como funciona a certificação?

A certificação DGNB não soma pontos para realizações diferentes, como outras o fazem, mas faz uma avaliação balanceada. De várias características juntas. O sistema DGNB' pode ser usado na fase de projeto, ajudando a melhorar o desempenho global, e também quando o edifício está concluído, dando uma avaliação do resultado real. Mais ainda, ele não determina nem proíbe nenhuma medida especifica, mas sim define metas realísticas a serem atingidas. Ou seja, o sistema é orientado pela performance, não por medidas. Por último, e não menos importante, é que o sistema DGNB considera toda a vida útil de um edifício.

Este sistema de certificação adaptado ao Brasil?

Sim, o DGNB está sendo adaptado. Em 2011 uma delegação visitou o Brasil e conheceu os parceiros locais para nosso projeto de adaptação. Hoje, procuramos projetos-piloto. Aliás, se algum dos leitores tiver interesse, pode entrar em contato conosco!

Que tipos de projetos-piloto vocês estão procurando?

Procuramos preferencialmente edifícios novos de escritórios, mas também podem ser residenciais, de varejo, estádios...

E quem são seus parceiros no Brasil?

São representantes do Green Building Council Brasil, várias universidades e institutos de pesquisa, consultores de sustentabilidade e certificadoras.

Que tipos de adaptações são necessários ao nosso país em particular?

O mais importante é a tropicalização. O sistema DGNB foi inicialmente projetado para o clima europeu moderado. Muitos aspectos como conforto térmico, acesso do público, uso de água de chuva, etc., acontecem de forma diferente. Mas, felizmente, o sistema DGNB é bem flexível, e pode incorporar essas diferenças enquanto mantem a mesma abordagem sistemática e padrões de qualidade. Não acreditamos que seja fácil pegar um sistema e usar em qualquer lugar do planeta sem os ajustes necessários. Esta é uma das razões pela qual desenvolvemos nossa própria certificação em vez de assumir qualquer uma das já existentes, além de que elas simplesmente não representam o padrão de qualidade que queremos.

Você diria que uma das principais questões no Brasil é o calor, enquanto na Europa é o frio? Como a certificação trata dessas duas questões?

É interessante, mas na Europa as questões de temperatura se referem a tanto aquecimento como resfriamento, enquanto no Brasil é resfriamento. No inverno, alguns edifícios devem ser aquecidos, mas no verão temos o mesmo problema que o Brasil, exceto a umidade.

No Brasil, um dos grandes problemas ambientais é a destinação dos materiais não aproveitados e os resíduos. Como resolver ou amenizar o problema da destinação? O fornecedor deve ser 100% responsável pela destinação das sobras de obra?

A longo prazo, só é possível solucionar este problema se alcançarmos o conceito de Triple Zero. Todas as edificações devem poder retornar 100% ao fluxo de materiais — uma tarefa totalmente atingível, como demonstramos, por exemplo, nos projetos R128 e F87 [o R128, localizado em Stuttgart, é a casa do próprio Werner. 0 F87, situado em Berlim, ganhou o prémio "Efficiency House Plus with Electromobility" pela German Federal Ministry of Transport, Building, and Urban Development (Ministério de Transporte, Construção e Desenvolvimento Urbano da Alemanha)]

O senhor acredita que, caso se confinem as teses de que o planeta não está aquecendo, isso causaria "refluxo" na onda de sustentabilidade?

Sustentabilidade é muito mais que aquecimento global. Matérias-primas, água, espaço, conforto, funcionalidade, todas essas são questões dentro da sustentabilidade. Mesmo que não houvesse aquecimento global, as pessoas optariam por uma abordagem que visasse ao futuro. Elas entenderam a questão na fogueira: o bem-estar de nosso planeta e das gerações além da nossa.

Quanto o senhor estima que o "mercado de sustentabilidade" está criando em valor? A sustentabilidade está virando uma commodity?

No meu entendimento, sustentabilidade lida é uma commodity, mas tuna necessidade absoluta se quisermos preservar nosso planeta Para as gerações por vir. Para aqueles que somente se interessam em lucros de curto prazo, a sustentabilidade com certeza lido é uma questão. Para todos os outros, é um investimento e o futuro. Estou convencido de que muito em breve edifícios sustentáveis certificados serão a regra, não a exceção.

Uma certificação que trate de questões desde o conceito da edificação até a origem dos materiais, além da própria construção, pode trabalhar para trazer uma integração entre projetista de arquitetura, as demais projetistas, construtora e cliente?

Planejamento integral é uma condição absoluta para otimização de edifícios. Esta também é a razão pela qual o DGNB se atenta tanto a soluções de planejamento integradas. Projetistas, construtora e o cliente devem desenvolver um entendimento comum de quais são as metas e como elas podem ser alcançadas.

Quais você diria que são os aspectos positivos e negativos da sustentabilidade no Brasil?

Parece-me que algumas pessoas entenderam que a sustentabilidade nunca é uma questão de curto prazo. Não há um retorno financeiro rápido quando se projeta e constrói um edifício sustentável. O retomo do investimento acontece no longo prazo — mas definitivamente acontece.

Há quem critique a falta de maturidade (tecnológica, cultural e política) brasileira ao lidar com questões de sustentabilidade. As certificações podem cumprir um papel importante nesse processo?

As certificações permitem que se definam padrões de qualidade e que se controle se eles são atingidos. Elas agem, portanto, como "porteiros", e isso é particularmente importante em situações nas quais ainda não há consolidação de uma cultura de construção sustentável.

Haveria um papel para políticas públicas para tais mudanças?

O governo pode apoiar este processo definindo regras gerais e entardecendo os padrões mínimos a serem atingidos. Mas a certificação de sustentabilidade de estabelecer tendências, definindo a direção a ser desenvolvida pelo mercado.

Sem o uso da certificação, de que forma podemos assegurar a construção de empreendimentos sustentáveis somente pelas boas práticas, da escolha e compra dos materiais até a execução da obra?

Em minha opinião, é muito difícil, senão impossível, garantir que um prédio seja sustentável se não ha nenhum tipo de controle da qualidade externo. E é disso que trata a certificação.

Nesses quatro anos de DGNB e sistema de certificação, houve lições aprendidas ou aperfeiçoamentos?

Nosso sistema é continuamente ampliado e atualizado. A flexibilidade e adaptabilidade foram pré-requisitos quando começamos a desenvolvê-lo. Felizmente nossos pressupostos iniciais continuam válidos, e não foi preciso fazer nenhuma mudança substancial. A lição mais importante até agora é a necessidade de continuar informando as pessoas sobre o potencial e as possiblidades do projeto e construção sustentáveis.

FONTE: Revista Téchne - Fevereiro 2012

 


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